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FACTORES QUE CONDICIONAM A AGRICULTURA

Factores que condicionam a agricultura portuguesa

As desigualdades regionais evidenciadas pela dimensão e estrutura das explorações agrícolas estão relacionadas com factores físicos - clima, relevo, solo, recursos hídricos disponíveis – e factores humanos – características da população, sobretudo de ordem histórica, e principais objectivos da produção.

1. Factores físicos

No nosso País, o clima é dos factores que mais condiciona a produção agrícola, tanto pela temperatura como pela precipitação

doc. 1 - A INCERTEZA DO CLIMA

Em Portugal, a irregularidade do clima não é propícia ao desenvolvimento da agricultura. Os solos argilosos só por meio de regas admitem culturas de Verão. Mas é sobretudo a irregularidade da Primavera, a mais caprichosa das estações, que pode comprometer as produções. As chuvas primaveris, quando escassas, não ajudam ao desenvolvimento das plantas; em excesso, curvam-nas e apodrecem-nas; tardias, coincidindo com os calores elevados de Maio, favorecem o desenvolvimento de várias doenças parasitárias. A Primavera tem outros perigos: geadas tardias, dias de vento forte que agita os ramos das árvores em floração, perdendo-se, às vezes, a maior parte dos frutos, cheias esporádicas dos grandes rios, que ora retardam o início das sementeiras de Verão ora prejudicam as plantas já crescidas.

Adaptado de Orlando Ribeiro, Geografia de Portugal, 1987

Mapa Ipsométrico de Portugal continental

O relevo é outro dos factores que influencia a produção e a ocupação agrícola. O relevo acidentado, devido ao acentuado declive das vertentes, inviabiliza, muitas vezes, a prática da agricultura, pois favorece a erosão, que torna os solos cada vez mais pobres. Além disso, o aumento da altitude provoca a diminuição da temperatura, condicionando o desenvolvimento das plantas.
O relevo acidentado dificulta também a modernização das explorações. Em muitas áreas rurais do nosso País, a construção de socalcos – patamares mais ou menos horizontais – foi uma solução encontrada para ultrapassar este condicionalismo.
A fertilidade do solo (natural e criada pelo Homem) influencia directamente a produção agrícola. Em Portugal, predominam os solos de fertilidade natural média ou baixa, o que condiciona bastante a agricultura portuguesa.
Por último, a existência de recursos hídricos é fundamental pelo que, em áreas onde as chuvas são escassas, a rega torna-se indispensável.

(Consultar consola - mapas de Portugal)

2. Factores humanos

O passado histórico é um dos factores que permite compreender a actual ocupação do solo. Por exemplo, a fragmentação acentuada da propriedade está, muitas vezes, relacionada com elevadas densidades populacionais e com o sistema de heranças de pais para filhos com partilhas iguais, resultado das leis liberais do século XIX. Estes aspectos reflectem-se nas estruturas fundiárias - dimensão e forma das propriedades rurais.

No Norte, a fragmentação da propriedade foi favorecida por diversos factores como:
- o relevo acidentado, a abundância de precipitação e a fertilidade natural do solo;
- o carácter anárquico do processo da Reconquista e o parcelamento de terras pelo clero e pela nobreza;
- a elevada densidade populacional;
- a partilha de heranças beneficiando igualmente todos os filhos.

No Sul, o predomínio de grandes propriedades está relacionado com:
- o relevo mais ou menos aplanado, o clima mais seco e a maior pobreza dos solos;
- a feição mais organizada da Reconquista e a doação de vastos domínios aos nobres e às ordens religiosas e militares, como recompensa régia pelos seus serviços;
- a aquisição, por burgueses endinheirados, de vastas propriedades da nobreza e do clero, no século XIX.

O objectivo da produção é outro factor que influencia a ocupação do solo. Quando a produção se destina ao mercado, importam os custos de produção. Então, as explorações tendem a ser de maior dimensão, mecanizadas, especializadas e monoculturais.
Pelo contrário, quando a produção se destina principalmente ao auto-consumo, as explorações são de pequena dimensão, policulturais e, muitas vezes, continuam a utilizar-se técnicas mais artesanais.

As características da população agrícola

Produtores agrícolas - idade

a) Envelhecimento da população
A população activa ocupada na agricultura portuguesa não tem parado de diminuir. O desaparecimento de muitas explorações, as fracas perspectivas da agricultura portuguesa e os baixos salários praticados explicam que os jovens tenham, progressivamente, abandonado este sector e que a população agrícola tenha envelhecido. A procura de melhores condições de vida esteve na origem, a partir da segunda metade do século xx, de amplos e intensos movimentos da população das áreas rurais para as áreas urbano-industriais (êxodo rural). Assiste-se a uma transferência de população activa para os sectores secundário e terciário.
b) O nível de instrução dos agricultores e a ausência de formação profissional
Outro dos factores que constitui um obstáculo ao desenvolvimento da agricultura portuguesa é o baixo nível de instrução da população agrícola e a sua fraca formação profissional.
De facto, 37% dos agricultores pertencem a uma faixa etária demasiado elevada, são frequentemente analfabetos e não dispõem de qualquer espécie de formação técnica de base.
Assim, compreende-se que a potenciação dos recursos agrícolas não seja possível, face ao profundo desconhecimento que a maioria dos agricultores nacionais tem das modernas técnicas de exploração agrícola, que permitem uma melhor rentabilização dos terrenos.

c) As deficiências ao nível técnico
As dificuldades da agricultura portuguesa ligam-se frequentemente às profundas carências que a mesma apresenta ao nível técnico. Nos últimos anos, a situação tem vindo a melhorar, embora a agricultura ainda esteja muito longe de atingir a modernização indispensável para poder concorrer com os restantes países da União Europeia.

d) Pluriactividade
A maior parte dos produtores agrícolas nacionais não se dedica exclusivamente à agricultura. De facto, só 8% das famílias agrícolas se dedica a tempo completo à agricultura, obtendo o seu rendimento da exploração. Isto significa que para a maioria dos produtores apenas uma parte do seu tempo é dedicado à exploração agrícola, conciliando esta actividade com outras, nos sectores secundário ou terciário. A agricultura é praticada a tempo parcial.
A pluriactividade agrícola implica que a exploração da terra seja feita a tempo parcial (tempos livres, fins-de-semana, etc.), contrastando com a exploração integral, em que o produtor se dedica em exclusivo à agricultura. É nas regiões do Algarve, Madeira, Alentejo, Trás-os-Montes e Beira Interior que se registam as maiores percentagens de trabalhadores que se dedicam à actividade agrícola a tempo parcial. Este facto está relacionado com os fracos rendimentos auferidos e com o maior envelhecimento da população que se regista nestas regiões. Plurirrendimento



A pluriactividade não é um fenómeno recente, nem no nosso país, nem nos restantes países industrializados, mas a tendência existente para compartilhar a exploração da terra com outras actividades tem vindo a aumentar (…) A diminuta dimensão das propriedades e os fracos rendimentos auferidos na agricultura fazem com que, em muitos casos, os agricultores tenham de procurar um complemento salarial que lhes assegure a subsistência, vivendo frequentemente de segundos empregos, actividades exercidas a título esporádico ou de pensões/reformas.

e) O sector agro-industrial
Em Portugal, as profundas deficiências que existem ao nível da comercialização e da distribuição fazem com que o sector agro-industrial não apresente o progresso que tem noutros países da UE.
É, ainda, muito insuficiente o aproveitamento que se faz de um sector com inúmeras potencialidades, excepção feita para as indústrias de concentrado de tomate e, mais recentemente, dos lacticínios.Agricultores que se dedicam à exploração a tempo parcial Assim, ao contrário de outros países mais avançados, em que as exigências de transformação, comercialização e distribuição levaram a uma profunda e positiva reforma do sector primário, Portugal apresenta ainda profundos atrasos neste domínio, resumindo-se, muitas vezes, o sector agro-industrial à transformação ou conservação dos produtos agrícolas excedentários do consumo em fresco.

f) A insuficiência do cooperativismo agrícola
Em Portugal, onde se verifica um predomínio das pequenas explorações, muitas das quais sem viabilidade económica ao nível da produção para o mercado, seria fundamental existirem cooperativas fortes e bem organizadas.
O associativismo permitiria uma melhor resposta face à concorrência, um acesso mais fácil ao crédito, o uso de tecnologias mais avançadas, a criação de uma melhor rede de distribuição e uma modernização das explorações agrícolas, contribuindo, desta forma, para uma melhoria da produtividade agrícola e para um aumento do nível de vida dos agricultores.